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A REMISSÃO DOS NOSSOS DIABOS E DEMÔNIOS

 

Por ROLLO MAY e STEPHEN A. DIAMOND; excerto do livro “Ao encontro com a Sombra”.

 

A percepção de que a existência humana é composta de alegrias e de aflições é um pré-requisito para aceitarmos a responsabilidade pelas conseqüências das nossas intenções. Minhas intenções às vezes podem ser más — o dragão ou a esfinge dentro de mim estão rugindo e, ocasionalmente, se expressam — mas devo fazer o melhor possível para aceitá-las como parte de mim mesmo em vez de projetá-las sobre você.

O crescimento não pode ser uma base para a ética, pois o crescimento é tanto o mal quanto o bem. A cada dia que passa, crescemos rumo à enfermidade e à morte. Muitas vezes o neurótico vê isso melhor que nós outros: ele teme crescer em maturidade porque reconhece (de uma maneira neurótica, é claro) que cada passo para cima o leva para mais perto da morte. O câncer é um crescimento; é um crescimento desproporcionado, no qual algumas células se desenvolvem de modo selvagem. O sol, de modo geral, faz bem para o corpo; mas quando a pessoa tem tuberculose, o sol faz muito mais bem para os t.b. bacilli e, portanto, as regiões afetadas do corpo precisam ser protegidas. Sempre que descobrimos que precisamos equilibrar um elemento contra outro, verificamos a necessidade de outros critérios mais profundos que a ética unidimensional do crescimento.

Admitindo com franqueza, nossa capacidade para o mal depende de rompermos a nossa pseudo-inocência. Enquanto preservarmos o nosso pensamento unidimensional, poderemos encobrir nossos atos alegando inocência. Essa fuga antidiluviana da consciência não é mais possível. Somos responsáveis pelas conseqüências dos nossos atos e também somos responsáveis por nos conscientizarmos, tanto quanto possível, dessas conseqüências.

Na psicoterapia, é muito difícil para a pessoa aceitar essa potencialidade ampliada para o mal que acompanha a capacidade para o bem. Os pacientes estão demasiado acostumados a assumir a sua própria impotência. Qualquer percepção direta de sua força desequilibra sua orientação para a vida, e eles não sabem o que fazer se tiverem que admitir o mal que existe dentro deles.

E uma bênção considerável uma pessoa perceber que tem um lado negativo como todo mundo, que o daemônico tem potencialidades tanto para o bem quanto para o mal, e que ela não pode nem reprimi-lo nem viver sem ele. Também é benéfico quando a pessoa chega a ver que grande parte de suas realizações está ligada aos próprios conflitos que esse impulso daemônico engendra. Essa é a sede da experiência de que a vida é uma mistura de bem e de mal; de que não existe o bem puro; e de que, se o mal não existisse enquanto potencialidade, o bem tampouco poderia existir. A vida consiste em alcançar o bem, não isolado do mal, mas apesar dele.

A psicoterapia é uma maneira de chegarmos a um acordo com o daemônico. Quando corajosamente damos voz aos nossos "demônios" interiores — simbolizando aquelas tendências em nós que mais tememos, das quais fugimos e pelas quais, portanto, somos obcecados ou atormentados — nós os transmutamos em úteis aliados sob a forma de uma energia psíquica vital e recém-liberada para utilizarmos em atividades construtivas. Durante esse processo, descobrimos o paradoxo percebido por muitos artistas: aquilo que reprimíamos e de que fugíamos, acaba se tornando a fonte mais plena da vitalidade, da criatividade e da autêntica espiritualidade.

 

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