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JUNG DISCÍPULO DE FREUD – SERÁ???

 

Nos círculos psicológicos, especialmente nos psicanalíticos ortodoxos e nas faculdades de Psicologia, se ensina que JUNG fora discípulo de FREUD e, por este, eleito seu “príncipe herdeiro”... (quanta vaidade!)! Mas isso não é verdade.

JUNG jamais foi discípulo de quem quer que seja, muito menos de FREUD. JUNG era independente e autônomo e, como todo estudioso da alma humana, precisava se relacionar socialmente com seus pares. Daí a necessidade de pertencer a um grupo de iguais - estudiosos e pensadores, dentre os quais FREUD e tantos outros. JUNG começou seus estudos MUITO ANTES DE CONHECER FREUD E SUA TEORIA.

Para compreendermos o que foi dito acima e chegarmos a tais conclusões é preciso conhecer fatos da vida de JUNG antes de iniciar seus estudos em Medicina e Psicologia. (A partir daqui, o que estiver entre aspas e em itálico foi retirado do Livro Vermelho, de Jung, cuja referência está no final deste escrito. O leitor será avisado onde eu modifiquei o texto em sua forma – grafia e sublinhado – para maior destaque da ideia nele demnstrada.

Em sua infância, Jung experimentou algumas alucinações visuais. Parece que tinha a capacidade de evocar imagens voluntariamente.” Certo dia, quando tinha doze anos e estava apreciando os azulejos de uma catedral na Basileia, “... sentiu a aproximação de um pensamento terrível e pecaminoso, que tentou mandar embora. Ficou angustiado por vários dias. Finalmente, após convencer a si mesmo de que era Deus que queria que ele pensasse esse pensamento, assim como foi Deus que quis que Adão e Eva pecassem, permitiu-se contemplá-lo, e viu Deus em seu trono despejar um poderoso monte de excremento sobre a catedral, arrasando seu novo telhado e estraçalhando a catedral.” ... “Ele sentiu-se sozinho perante Deus, e sentiu que sua real responsabilidade começava ali. Percebeu que foi precisamente tal experiência direta e imediata do Deus vivo, que está fora da Igreja e da Bíblia, que faltava a seu pai.”. 

Suas vivências, nesse período, levaram JUNG a iniciar seus estudos SOZINHO através de inúmeras literaturas. “Impressionou-o o fato de que, com Mefistófeles, Goethe levou a figura do diabo a sério. Na filosofia, impressionou-o Schopenhauer, que reconhecia a existência do mal e deu voz aos sofrimentos e misérias do mundo.

Jung também tinha a impressão de viver em dois séculos, e sentia uma forte nostalgia pelo século XVIII. Sua sensação de dualidade tomou a forma de duas personalidades alternadas, que cunhou de número 1 e número 2. Personalidade número 1 era o garoto da Basileia, que lia romances, e personalidade número 2 era a que solitariamente perseguia reflexões religiosas, num estado de comunhão com a natureza e com o cosmo.

Quando se aproximou o momento para ele de escolher uma carreira, o conflito entre as duas personalidades intensificou-se. A número 1 queria as ciências, a número 2, as humanidades.” . Como forma de se sobreviver, optou por estudar Medicina.

Em seus dias de universidade, o jogo entre essas duas personalidade continuou. Em acréscimo a seus estudos médicos, Jung seguiu um programa intensivo de leituras extracurriculares, em especial das obras de Nietzsche, Schopenhauer, Swedenborg, e autores espiritualistas ... (onde apareceu FREUD?, observação minha). “Especialmente o espiritualismo o interessava muito, já que parecia que os espiritualistas estavam tentando utilizar meios científicos para explorar o sobrenatural, e para provar a imortalidade da alma.

Ao ler o Manual de Psiquiatria de Richard von Krafft-Ebing em 1899,  ele percebeu que sua vocação estava na psiquiatria, que representava uma fusão dos interesses de suas duas personalidades. ... Depois de completar seus estudos médicos, assumiu um posto como médico assistente no hospital Burghölzli no final de 1900. O Burghölzli era uma clínica da universidade com um clima progressivo, sob a direção de Eugen Bleuler. No final do século XIX, muitas figuras tentaram fundar uma nova psicologia científica.” ... Graças a Bleuler e seu antecessor, Auguste Forel, a pesquisa psicológica e a hipnose tinham lugar de destaque no Burghölzli.”.

A dissertação médica de Jung focalizava a psicogênese dos fenômenos espiritualísticos, na forma de uma análise de suas sessões com sua prima Helène Preiswerk. ..., nesse ínterim ele havia estudado os trabalhos de Frederic Myers, William James e, em especial, Théodore Flournoy.” ... “Eles argumentavam que independentemente das supostas experiências espiritualísticas serem válidas, tais experiências proporcionaram insigths muito profundos sobre a constituição do subliminar e, portanto, da psicologia humana como um todo.” ... “A dissertação de Jung indica a maneira como ele utilizava a escrita automática como um método de investigação psicológica.

Jung sempre se interessou pela arte. Fazia pinturas tanto a óleo quanto aquarelas. Visitava frequentemente o museu de arte da Basileia e chegou a visitar o Museu Britânico. “Em 1902-1903, Jung deixou seu posto no Burghölzli e foi a Paris para estudar com o eminente psicólogo francês Pierre Janet, ...  ... tendo ido “constantemente ao Louvre. Prestava muita atenção especialmente em arte antiga, antiguidades egípcias, nas obras da Renascença, Fra Angelico, Leonardo da Vinci, Rubens e Frans Hals.

Na sua volta, assumiu um cargo que havia vagado no Burghölzli, e dedicou sua pesquisa à análise das associações linguísticas em colaboração com Franz Riklin. Com a ajuda de assistentes, eles conduziram uma série extensa de experimentos, que submeteram a análises estatísticas. A BASE CONCEITUAL DO TRABALHO INICIAL DE JUNG ESTAVA NAS OBRAS DE FLOURNOY E JANET, QUE ELE TENTAVA JUNTAR COM A METODOLOGIA DE PESQUISA DE WILHELM WUNDT E EMIL KRAEPELIN. JUNG E RIKLIN UTILIZARAM O EXPERIMENTO DE ASSOCIAÇÕES, CRIADO POR FRANCIS GALTON E DESENVOLVIDO NA PSICOLOGIA E NA PSIQUIATRIA POR WUNDT, KRAEPELIN E GUSTAV ASCHAFFENBURG. (Maiúsculas minhas para evidenciar: onde está FREUD?). ”O objetivo do projeto de pesquisa, estimulado por Bleuler, era fornecer um modo rápido e confiável de diagnóstico diferencial. A equipe do Burghölzli falhou nisso, mas ficaram impressionados pelo significado dos distúrbios de reação e tempo de resposta prolongados. Jung e Riklin argumentavam que ESSA REAÇÕES PERTUBADAS ERAM DEVIDAS À PRESENÇA DE COMPLEXOS EMOCIONALMENTE ESTRESSANTES, E USARAM SEUS EXPERIMENTOS PARA DESENVOLVER UMA PSICOLOGIA GERAL DOS COMPLEXOS.” (Maiúsculas e grifos meus).

Esse trabalho estabeleceu a reputação de Jung como uma das estrelas ascendentes da psiquiatria. Em 1906, ele aplicou sua nova teoria dos complexos para estudar a psicogênese da dementia praecox (posteriormente chamada de esquizofrenia) e para demonstrar a inteligibilidade das formações delirantes. Para Jung, juntamente com numerosos outros psiquiatras e psicólogos da época, tais como Janet e Adolf Meyer  (e não FREUD – destaque meu), a insanidade não era encarada como algo completamente separado da sanidade, mas, ao invés, como algo posicionado no extremo final de um espectro.

Jung desencantou-se cada vez mais com as limitações dos métodos experimentais e estatísticos na psicologia e psiquiatria.” ... “Por volta de 1904, Bleuler introduzira a psicanálise no Burghölzli, e começou uma correspondência com Freud, pedindo sua ajuda para a análise de seus próprios sonhos. Em 1906, Jung começou a comunicar-se com Freud. Esse relacionamento foi muito mitologizado. Uma legião “freudocêntrica”surgiu, que via Freud e a psicanálise como a fonte principal do trabalho de Jung. Isso levou a uma compreensão completamente equivocada de seu trabalho na história intelectual do século XX. Em inúmeras ocasiões Jung protestou. Num artigo inédito escrito nos anos 1930, por exemplo, Jung escreveu:  DE FORMA ALGUMA EU DESCENDO EXCLUSIVAMENTE DE FREUD. EU TINHA MINHA ATITUDE CIENTÍFICA E A TEORIA DOS COMPLEXOS ANTES DE ENCONTRÁ-LO. OS MESTRES QUE MAIS ME INFLUENCIARAM ACIMA DE TODOS SÃO Bleuler, Pierre Janet e Theodore Flournoy. (Maiúsculas minhas). Freud e Jung claramente vieram de tradições intelectuais bem diferentes, e se aproximaram por conta de interesse comum na psicogênese das desordens mentais e na psicoterapia.  

Creio não precisar mais discorrer sobre a trajetória de vida, dos estudos e da formação científica de Jung que NÃO SE BASEIA EM FREUD E EM SUAS IDEIAS. No entanto, algo em comum havia nelas, tanto que levaram à aproximação dos dois. Por outro lado, o entendimento diferente dos mesmos pressupostos teóricos culminou com a ruptura entre eles em 1912, quando Jung publica o seu livro Transformações e Símbolos da Libido, mais tarde renomeado para Símbolos da Transformação. Essa publicação levou Jung ao encontro de suas ideias originais e reformulação de outras da psicanálise o que, logicamente, não agradou ao seu “criador/rei”. Já não dava mais para Jung ser o “herdeiro de Freud” – Jung queria isso?

Esse livro, é um marco para a Psicologia Analítica pois atingia em cheio o principal pressuposto teórico de Freud, ou seja, suas ideais sobre a libido ou “energia sexual”, a qual comandaria a psicologia do ser humano. Jung foi mais além e denominou a libido de “energia psíquica”, aquela que rege o funcionamento psíquico do ser humano sendo que a “energia sexual (ou a libido de Freud) seria tão somente parte dessa energia total”.

Ora, se os dois tivessem o mesmo pensamento sobre a psicologia humana não teriam ficado juntos até o fim? Jung tinha seus próprios postulados psicológicos bem antes de Freud. Então, não dá para se falar em mestre e discípulo. Jung foi e é o mestre na sua própria teoria psicológica a Psicologia Analítica, em muito parecida com a psicanálise tanto que também leva tal nome. Nós, junguianos, preferimos os termos análise e analistas, (termos que os psicanalistas tem adotado para si e para sua práxis (a psicanálise) – e nem se aperceberam disso!

Por fim, quero pontuar alguma coisa sobre o Livro Vermelho de Jung. Um primor artístico na sua confecção, totalmente manual, na escrita e nas ilustrações. Um livro de leitura e entendimento difícil. Seu conteúdo trata de teoria psicológica, arte, literatura e, talvez, devaneios de um escritor/poeta/artista? Talvez mais que isso: creio revelar a árdua busca que todo ser humano deve fazer pelo encontro do self, ou seja, de sua sombra, de si-mesmo. Não sei. Só sei que não é para qualquer um. Eu mesmo pouco entendi. Mas isso tem uma explicação: foi escrito pelo maior gênio do século XX: Carl Gustav Jung.

Aquele que tiver contato com o livro ficará fascinado com seu conteúdo idealístico e artístico. E nem precisa ser um estudioso de psicologia. Ver como Jung o escreveu, à mão, sem erros, numa escrita uniforme, com figuras e desenhos feitos e pintados por ele, a riqueza das cores e dos detalhes... uma maravilha! Jung levou 15 anos para escrevê-lo de 1913  (interessante, logo após a ruptura com Freud!) a 1928 e o deixou incompleto, pois iniciou seus estudos em Alquimia. Mas esta é uma outra história.

 

REFERÊNCIA BIBLIOFRÁFICA


JUNG. C.G.. O Livro Vermelho:  Liber Novus. Trad.: Edgar Orth. Petrópolis, RJ: Vozes, 2010. 371 p.

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